quinta-feira, outubro 12, 2006

Primo Levi

"Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, tornando fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela."
[…]
"Então pela primeira vez nos apercebemos que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegamos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva."
[…]
"Na história e na vida parece às vezes vislumbrar-se uma lei feroz segundo a qual “dar-se-á a quem tiver, tirar-se-á a quem não tiver”. No Lager, onde o homem está só e a luta pela vida se reduz ao seu mecanismo primordial, a lei iníqua está abertamente em vigor, é reconhecida por todos. Com os aptos, com os indivíduos fortes e astutos, os próprios chefes gostam de manter contactos, que chegam a ser quase de camaradagem, pois esperam poder tirar, talvez mais tarde, algum proveito. Mas aos “muçulmanos”, aos homens em fase de degradação, não vale a pena dirigir a palavra, pois já se sabe que começariam a queixar-se e a contar o que costumavam comer em casa."
[..]
"Quem não sabe tornar-se um Organisator, Kombinator, Proeminent (feroz eloquência das palavras!) acaba por se tornar dentro em pouco num “muçulmano”. Uma terceira via existe na vida, onde aliás é a norma; não existe no campo de concentração."
[…]
"Eles são o produto típico da estrutura do Lager alemão: ofereça-se a alguns indivíduos em estado de escravidão uma posição privilegiada, um certo bem-estar e uma boa probabilidade de sobreviver, exigindo em troca a traição da solidariedade natural para com os seus companheiros, e certamente haverá quem aceite. Este será subtraído à lei comum e tornar-se-á intangível; será por isso tanto mais odioso e odiado quanto mais poder lhe for atribuído. Se lhe confiarem o comando de um manípulo de desgraçados, com direito de vida ou morte sobre eles, será cruel e tirânico, porque perceberá que, se não o for suficientemente, outro, considerado mais apto, tomará o seu lugar."


Se Isto é um Homem, Tradução de Simonetta cabrita Neto

2 Comments:

Anonymous Bodhisattva said...

"Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que um faculdade nos restou, e temos que a defender com todo o vigor porque é a última: a faculade de negar o nosso consentimento."

sábado, outubro 14, 2006 6:42:00 da tarde  
Anonymous a. velho said...

claramente, gosto de passar por aqui.

quarta-feira, outubro 18, 2006 12:07:00 da tarde  

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