sexta-feira, abril 28, 2006

Carlos Bessa

desenhos




Aos poucos tornei-me indiferente,
já não tenho paciência para
levantar a voz. Os prédios altos
passaram de moda. Acontecerá
o mesmo com a continência e
com a anedota? Quando cheguei
à escola era a guerra, o
cimento, o petróleo. Agora,
é a comunicação, o chewing
gum. Felizmente os garrafões são já
de plástico. Tudo isto seria homenagem,
não fora o cúmulo de pó,
no armário, em cada canto, no
mais pequeno e escondido quarto
do fundo, no sofá de ver tv.
O silêncio e o incómodo
Passaram. Lembrá-lo é dizer de
um gramático que entrava na
conversa à bofetada, do excesso
de escoriações e pesadelos
que fez da infância uma quase
surdez. E quando se olha para trás
regressa o império do pormenor
em ritmo de atmosfera pop.
Como se pode, pálido coração,
tanto silêncio? Como suportar
o sonho do que já foi, como não
aborrecer ninguém com o feltro
dessas doze cores industriais?

4 Comments:

Anonymous hmbf said...

Só os últimos cinco versos já faziam um belo poema.

domingo, abril 30, 2006 3:46:00 da tarde  
Anonymous renato c. said...

Belo. Que não passa.

quarta-feira, maio 03, 2006 4:19:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Poderia dizer-me se este poema se encontra publicado em algum livro ou revista?

domingo, maio 07, 2006 8:09:00 da tarde  
Blogger JMS said...

Foi publicado na Assírio, o livro chama-se "Em partes iguais"

segunda-feira, maio 08, 2006 11:10:00 da manhã  

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