sexta-feira, março 24, 2006

Grandes Aberturas # 18

Aí vêm eles, marchando para a luz do sol americano. Avançam em grupos de dois, eterno casal, pelo caminho que se avista para além da cerca, no centro-esquerdo do campo. A música arrasta-os através dos relvados, às dúzias, às centenas, demasiados já para se poderem contar. O ajuntamento é tão cerrado, atravessando o vasto círculo dos terrenos anexos, que se dá o efeito de uma metamorfose. De uma série de pares ligados, transformam-se numa onda contínua, cada vez mais grossa, cobrindo de branco e azul-marinho o espaço envolvente.
Observando tudo desde a bancada central, o pai de Karen não pode deixar de pensar que é precisamente essa a questão. Eles formam agora um enorme corpo, uma massa indiferenciada, o que lhe transmite um certo desconforto. Aponta os binóculos para uma rapariga, e outra, e outra ainda. Tantas fileiras, e tão cerradas. Nunca viu nada assim, nem sequer imaginava que fosse possível. Não foi o espectáculo que o trouxe ali , mas este começa a provocar-lhe estupefacção.

Don DeLillo - Mao II (Tradução de José Miguel Silva)

1 Comments:

Blogger Vida Involuntária said...

Tomei a liberdade de postar no meu recém nascido blogue, um poema do seu "Movimentos no Escuro".
Não acredito na "utilidade" da Poesia, pois nada de verdadeiramente importante é útil, isto é, serve para.
Mas arrisco a dizer e não "minto honestamente", que este poema é deveras pedagógico...

domingo, março 26, 2006 5:34:00 da manhã  

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