terça-feira, março 06, 2007

Avercamp, Avercamp, traze as tintas.
















Avercamp, Avercamp traze as tintas
E pinta o nosso outeiro, ainda que mintas!

Esboça o ar da noite em fresco linho,
Íntimo a alguma carne truculenta,
E derrama o veludo como um vinho
Na trémula de amor.
Pinta-a, Avercamp, seja como for!

Traz a caixa, Jan Steen, e a tinta ardente,
Pinta o nosso interior inexistente!

Uns vizinhos vieram para a boda
Com cabaços de grés esvaziados:
Nossa Senhora faça da água toda
Da Holanda
Satisfeitos os nossos convidados!
Pinta, Jan Steen, pinta estas coisas, anda!

E não esqueça, na orgia imaginosa
Da casinha do dique já tombada,
A velhota do folho cor-de-rosa,
Avó da pura noiva imaginada.

Nem os grossos burgueses de sombrero,
Com bofes naturais, que não de goma,
E o mundo saiba em tinta que só quero
Ser feliz, tão feliz quanto se coma.

Mas sobretudo, oh Mestre, ao canal rente
Não caia o noivo, tonto de poesia:
O noivo

Que eu não sei se é menino, se é borracho,
Pombo ou bêbado à força de alegria:
Em todo o caso, bêbado como um cacho!

Desprendido insensato do aparente,
O que na vida perco, em tinta o acho.

Vitorino Nemésio

8 Comments:

Blogger Vida Involuntária said...

Olá Miguel,
Pintei-me de Maria Alice, mas você não me achou...
Genial Nemésio, tão mal lido ainda.

Vi.

terça-feira, março 06, 2007 7:04:00 da tarde  
Blogger JMS said...

Olá "Maria Alice"! Como é que eu podia adivinhar que lhe tinha dado para os heterónimos? O Nemésio não é tão lido como o merecia, mas alguém o é? Esse ao menos teve os faróis a dar-lhe em cima a vida toda, com direito a conversa em família no écran e tudo. Morreu, esqueceu. O costume, por cá. Mas em Nemésio só aprecio a audácia formal, a desenvoltura; daí para baixo, convenhamos que o homem era um bocado patarata, conseguia sempre falar de tudo sem dizer grande coisa nem ferir ninguém, contornar todos os obstáculos com a arte de um esquiador consumado. Ou estarei a ser algo injusto? Abraços.

quarta-feira, março 07, 2007 1:39:00 da manhã  
Blogger Vida Involuntária said...

Tadinho do Nemésio..Olhe que eu ainda me lembro do "Se bem me lembro" a preto e branco - sou uma senhora antiga...- e digo-lhe que para o "grande público" da época, famílias e "homem da rua" ele era uma espécie de bobo, com o seu sotaque açoriano. E não percebiam patavina do que ele dizia. Era por essas e por outras que o Estado Novo o tolerava. Até saiu o "Mau Tempo no Canal" na Biblioteca RTP, que esta menina leu à época - "Amigo não empata amigo, nem soldado português puta espanhola" - mas que se coleccionava nos móveis para a televisão e biblots das salas-comuns da pequena burguesia urbana.

Acho este poema magnífico.Nada de blandícias choninhas, embebeda-nos de um irrealismo pictural cheio de alusões saborosíssimas, além de ser uma espécie de "arte poética", "lato sensu".
E os amores com a "Cadela Pura"? A Marga?
Ah, pese embora algumas incoerências -quem não as tem? - este escriba é baril!...E os "noventinhas" não lhe ligam puto.sbg

Mais abraços.

Vi.
Vi.

quarta-feira, março 07, 2007 4:35:00 da manhã  
Blogger Vida Involuntária said...

Corrijo:

o "sbg" não é nenhuma sigla misteriosa. Foi a sua "word of verification" que não entrou à primeira.

quarta-feira, março 07, 2007 4:42:00 da manhã  
Blogger JMS said...

Ainda não consegui ler "mau tempo no canal"... Talvez um dia, quando me reformar e tiver tempo para me sentar numa cadeira de baloiço com estofos dorsais, em frente ao mar...

quarta-feira, março 07, 2007 6:10:00 da tarde  
Blogger Vida Involuntária said...

Pois é, mas eu li-o muito jovem, em tempos em que ainda tinha pachorra para "ficções" insulares.
Não precisei de esperar pela reforma. Por isso, as circunstâncias do leitor, são sempre díspares.

Mantenha lá a "loca" homem! Mais ou menos infecta ou asséptica; não me desfalque os "poucachinhos" "favoritos", que de quando em vez, visito. Deixe-se de amuos.
Posso procurar o "Macbeth" ou ainda não? É que ando pouco em dia com as saídas.

Vi.

quinta-feira, março 08, 2007 12:56:00 da manhã  
Blogger JMS said...

O "Macbeth" anda aí pelas livrarias, a tentar fazer pela vida. Coitado.
Também eu ando pouco em dia com as saídas; apenas o suficiente para saber que cada vez sai menos que se possa comprar e que os bons livros estão é noutras línguas que não esta. E esses podem - magias do nosso tempo - ser comprados sem levantar o rabo da cadeira.

quinta-feira, março 08, 2007 2:45:00 da manhã  
Anonymous tutti said...

eu nada acho do que não perco.

segunda-feira, outubro 06, 2008 11:25:00 da tarde  

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