sexta-feira, março 09, 2007

Notícias da Frente Bibliotecária

Há quem não se incomode com isso, mas a mim irrita-me guardar livros maus ou inúteis. É como se não merecessem o espaço que ocupam, tenho-lhes quase rancor por me terem enganado com os seus nomes promissores e títulos sonantes. É-me difícil, por exemplo, não levar a mão ao nariz sempre que passo pelo obeso volume da "Rosa do Mundo", editada há uns anos pela Assírio. Uma verdadeira enciclopédia da ignorância verbal, diga-se de passagem. Oito contos, se bem me lembro, que mais valia ter dado ao primeiro arrumador que visse. A essa Rosa, só não a deitei fora por causa dos gregos traduzidos por M.H.R.P. e por meia dúzia de outros mais. Mas os demasiados livros que se acumulam numa casa: os tantos, os feios, os tontos, os zeppelinianos, os rés-do-estilo, os rés-do-estalo, os assim-assim, os engraçadinhos e os chatos (já para não falar nos idiotas e nos da puta, que também os há), a esses cada vez os suporto menos. Este nobel ensaista russamericano, por exemplo, é entrevistado ao longo de 440 pág. e só lhe ouvimos um blá-blá misticóide que não aquece (nem arrefece) meia salsicha. Não é irritante ter um livro destes em casa? É. Não apetece pô-lo na rua? Claro. E como tal centenas de outros.
Antigamente era mais cuidadoso com as limpezas, e volta e meia lá iam dois sacos para o alfarrabista (uma vera sacanice, diga-se a verdade - só desculpável pela necessidade - pois apesar de vender por cinco o que me custara 25, sempre me pareceu desonesto destinar o lixo a outra coisa que não o respectivo caixote); mas nos últimos anos tenho deixado acumular; e esses acumulados, mais os que vão caindo no abismo dos dispensáveis ( às dúzias por ano, uma carnificina) começam a fazer-se demasiado grossos nas estantes. Como é possível ter-se em casa três livros (3!!) de um caga-tacos manhoso e jesuítico chamado Léon Bloy? Que vergonha. Ou 12 livros de Pascoaes. Doze. 4 livros de Holderlin será pouco, mas para mim são 4 livros de Holderlin a mais. Uma das minhas cenas preferidas de D. Quixote é aquela em que alguém escrutina a sua biblioteca e atira metade pela janela. Que sentido de higiene. Agrada-me isso: reduzir tudo ao indispensável. Atirar fora o que apenas serve para fazer peso. Gostava de ter cada vez menos livros, em vez de mais, mas melhores. Precisar de poucas coisas. E assim com tudo.

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Por que não experimenta uma doação a uma biblioteca municipal?

sexta-feira, março 09, 2007 3:10:00 da tarde  
Blogger JMS said...

Pois, mas as bibliotecas não estão já cheias de venenoso entulho? A solução ideal, parece-me, passa mesmo pela reciclagem...

sexta-feira, março 09, 2007 5:36:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Vejo-me forçada a concordar consigo nesse ponto das bibliotecas. Veja-se a de Celorico de Basto com o que o Prof. Marcelo manda para lá! E o tipo ainda passa por benemérito!
Quanto à Rosa do Mundo, pense duas vezes antes de a despachar, pode dar jeito para atingir um qualquer meliante que lhe queira assaltar a casa. E ainda tira partido do efeito surpresa.

sexta-feira, março 09, 2007 7:30:00 da tarde  
Blogger JMS said...

Mas ... a Convenção de Genebra não proíbe a utilização de armas de destruição massiva?

sexta-feira, março 09, 2007 10:03:00 da tarde  
Blogger Vida Involuntária said...

Já li uma cena de "desinfecção" semelhante num livro (de prosa) do JMFJ. Só que o protagonista da crónica ia mesmo de cesto cheio de livrinhos, em viagens de ida e volta ao contentor do lixo.Acho, que todos nós, que estivemos perto de edições, e permutas simpáticas ou de circunstância, de livros, ensaios, catálogos e revistas, temos o nosso "trash". É inevitável.


Acho singular e perspicaz esse "de profundis" da "Rosa". Essa edição foi mais uma das iniciativas megalómana/nova-rica, da defunta Porto-2001. A exemplo do dispendioso "monumento" metálico, cujo auditório principal, continua com má acústica, pese embora os triliões de não sei que moeda,lá expendidos na vaidosice arquitectónica.O "lobby do granito" também fez intervenções urbanísticas discutríveis e desfigurantes, tudo pela 2001, a tal da "Rosa" que antes fosse a Mota.
Mas, à época as hagiografias dominantes da edição de poesia e de outras coisas, não permitiam críticas, que seriam certamente apodadas de dor de cotovelo ou ressabiamento. Hoje 2007, que resta dessa "efusão" cultural? Mais ouy menos o deserto.

Permita-me discordar um pouco da reciclagem do Hölderlin ou de outros desse naipe, pois parece-me que é preciso conhecê-los, para depois nos distanciarmos. Se não, acontece certa eclosão inane e pascácia de pistoleiros das letras minúsculas após os pontos finais, que como diz o Cesariny "já cansa a cona". Para destruir bem qualquer código e reinstaurar novos, é preciso, como tão bem sabe, tê-los conhecido.

Só não percebi bem a do "zeppelin". Literatura erótica ou de antecipação científica? É que conheço as duas acepções.

Abraço.

I. L.

sábado, março 10, 2007 1:34:00 da manhã  
Blogger JMS said...

Sim, também me lembro dessa cena, em que o protagonista diz que a colóquio letras é uma boa revista porque se rasga facilmente, ou assim. É excelente.
O Porto, pobre cidade abandonada, é uma dor de alma; de cultura nem vale a pena falar: a única coisa que tinha era a melhor livraria do país, e agora nem isso. Mas não ter sequer habitantes?! Ter o destino de uma esplêndida ruína no deserto? Mesmo na cidade arquitectonicamente mais interessante do país, sem habitantes não há futuro. E com isso é que uma pessoa não se conforma.
Não será presumir muito dizer que quem recusa o Holderlin é porque não o conhece? Eu conheço-o suficientemente para saber que não me interessa. Aliás, não é difícil. Qualquer nariz medianamente treinado consegue distinguir o comestível do incomestível. Não é preciso ser-se a minha gata Mia para distinguir o frisques do frosques, o atum do bedum, e por aí adiante. Mas confesso que os românticos, Inês, não são o meu forte...se calhar o problema está aí. Eu gosto de cabeças sólidas e lógicas, a emotividade só por si não basta, e a loucura só produz disparates ou inanidades místicas - não gosto, paciência.
Os zepellins são os que voam a gás, os que se erguem (lá está) misticamente para o céu, em raptos majestosos, altifalantes e metafísicos. As acepções de que fala, essas não as conhecia. Abraço.

sábado, março 10, 2007 3:15:00 da manhã  
Blogger Vida Involuntária said...

Miguel,

Eu não presumi nada disso a seu respeito, homem! Eu até disse, "como tão bem sabe".Em si, é precisamente o resultado de uma escolha amadurecida. Mas, quem não conhece, não pode escolher conscientemente.
Vouy j+á mandar este, para que n«ao haja confusões.

sábado, março 10, 2007 3:45:00 da manhã  
Blogger Vida Involuntária said...

Isto, comeu-me um comentário.
Mas, só estava a dizer que "romantismo", literariamente, cheira a anacronismo. Só inserido na sua própria época.Tudo mudou bastante. E os "grandes" excedem sempre a "escola". De "loucuras", já não podemos dizer o mesmo, porque há bastantes sucedâneos e algumas deixaram o catálogo das patologias.
Pessoalmente, gosto de alguns compositores românticos. Mas, não a todas as horas. Noutras prefiro Bach ou um clássico como Haydn. Mas, isto não é rejeição de nada. É sobretudo uma terapia, uma necessidade auditiva de certas frequências e timbres sonoros.

Do Porto, nem me fale.Até os motoristas de taxi se queixam da falta de clientes. E a melhor livraria vai a caminho da lenda, dos tempos em que se fazia bicha para um autógrafo do Aquilino ou do Régio. Fnacs e Amazons e falta de competência livreira. Que se calhar, até já ninguém procura...

Bom dia!

sábado, março 10, 2007 5:09:00 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Eu, pelo contrário, estou desolado. Perdi o Fabulário do Mário de Carvalho na edição &etc - é preciso azar, para mais nem o tinha cabado de ler. F.....

domingo, março 11, 2007 9:29:00 da tarde  

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